O valor da memória
Como um lugar, longe do lugar, se torna um baluarte de memórias. A comida é esse lugar.
Ainda posso desejar bom ano? Se puder, então fiquem com ele. Com o meu desejo, digo. Não creio que dê para partilhar Bom Ano por aí e esperar que todos os possamos ter. Quanto muito partilha-se o desejo de que todos tenhamos um bom ano.
Passada esta nota introdutória, estes primeiros dois meses foram desafiantes. Felizmente, não tive sobressaltos nem acidentes com as cheias e tempestades, podendo afirmar que o que se tornou mesmo insuportável foi a minha auto-diagnosticada depressão sazonal, alimentada por um ódio profundo a vento e um desdém crescente por chuva. Eu tolerava o conceito de chuva, mas sempre abominei a existência de vento. É como se sentisse um sopro eterno de alguém maior que eu, e ninguém no seu perfeito juízo sopra para a cara de outros, muito menos com tanta força de forma a levar-te o boné, a mobília de jardim, o telhado, os projectos de vida.
Por outro lado, os infortúnios da vida não dependem só do vento que sopra cá fora, mas dos que deixam de soprar por dentro, e comecei o ano com uma perda. Não me era directa, mas era querida, e testemunho de perto o quão grande a perda é. Nas exéquias, o neto referia, entre muitas coisas que lhe faziam lembrar a avó, que já ninguém iria fazer o arroz de alho ou a sopa com aquela textura, e que os netos iriam sempre procurar replicar. A homenagem criou natural comoção e revelou uma constatação bastante óbvia:
somos a memória do que crescemos a comer.
Esta frase voltaria a assaltar-me mais tarde na mesma semana, quando fui (guiado por remorsos, por temor de desaparecimento súbito? Nem sei.) visitar a minha própria avó paterna, a uma vila-cidade no Baixo Alentejo. A visita já pecava por tardia, inclusivamente adiada pelo mau tempo e a falta dele. De tempo, entenda-se. Mas já não podia esperar mais e pediram-me que me decidisse no cardápio.
Que queres para o almoço, que a avó faz?
Avó, não queria abusar muito. O que lhe dá jeito fazer sem causar muito transtorno?
Eu já vou fazer cachola, queres presinhas ou bacalhau com espinafres?
(silêncio)
Faça as presinhas então. E salada.
Não queria que fosse óbvio que estou a trabalhar na dieta, mas a salada é essencial: serve de contrapeso ao facto de eu saber, de antemão, que vou comer demasiado neste almoço. E passo a explicar porquê.
A sopa de cachola consiste em fígado, pulmão ou/e rim de porco cortado em cubos, apurado e frito na Santíssima Trindade de azeite, alho e louro, coberto depois de água para que cozam um pouco. Acrescenta-se também vinagre e sangue do suíno na mistura, bem como especiarias várias, e serve-se com pão e laranja, conforme imagem abaixo (fiquei com a laranja, caguei no pão).
Quanto às presinhas, muitos de vós conhecê-las-ão como carne de alguidar, a pedra de toque de muitos pratos do Alto e Baixo Alentejo, nomeadamente na carne de porco à Alentejana. A diferença entre estes dois pratos é a simples introdução de um elemento que simboliza o Alentejo Litoral, de Alcácer do Sal até Odemira: a amêijoa.
Mas as presinhas da minha avó são únicas. Porque são as da minha avó, porque cresci a comê-las em doses pouco saudáveis, mas recomendáveis para uma criança que, durante o Verão, passava os dias e noites a correr de um lado para o outro. Nessa altura, não precisava de salada para me sentir menos mal por comer carne de porco temperada em massa de pimentão e frita (agora já não) em banha do próprio, a acompanhar com batatas cortadas em cubos toscos, douradas a roçar a perfeição. Para evitar invejas, a imagem que se segue representam presinhas dentro de uma Tupperware, longe do aspecto apetitoso que possuem. O objectivo é simples:
fazer com que não morram de inveja e sobrecarreguem a minha avó com pedidos de encomendas.
Amigos meus ainda anseiam por voltar a comer estas presinhas. É um privilégio que tenho poder dispor das mesmas com a regularidade que me seja permitido. Tudo o que tenho de fazer é pedir e me deslocar para as comer, na companhia da minha avó, e trazer para o resto do povo, caso me apeteça partilhar. A pergunta que me faço é: conseguirei um dia eu replicar isto, para mostrar aos meus filhos? Conseguirei saber em que ponto tirar a carne da fritura? Quanto tempo fica a marinar? Qual a melhor forma de cortar batatas em cubos? A receita está escrita e por ela me guiarei. Posso também saber estas respostas através da simples arte da divinação e do achismo empírico: comi tantas vezes que acho que me sairei bem.
Receita para o desastre, óbvio.
Em ambos estes casos, o laço que nos une a quem vai é muito mais que gastronómico. A comida é, sem dúvida, uma parte do amor que temos por alguém que nos deixa, mas é apenas um ingrediente nas saudades que deixa. Mas existem os casos onde fica o vazio de alguém cuja único ato de amor para connosco foi o de servir o que tinha e podia, com o máximo de amor que conseguia.
Nestas fachada e esquina, viveu durante (largos?) anos um cantinho. Ou O Cantinho, do Bem Estar. O diminutivo fazia jus ao espaço: de cabeça, lembro-me de 10 mesas (tantas?) azuis, forradas a toalha de papel, louça simples. Paredes cobertas de quadros e gravuras, um pequeno artigo do New York Times onde mencionavam a frescura dos seus pratos de peixe e marisco, pratos esses que raramente devo ter comido, à exceção dos filetes com arroz de feijão, compunham o resto da sala, onde a cozinha era escondida do resto. Empregados sempre esguios, simpáticos e fora do padrão de empregado à portuguesa, bem como o dono: António Tiago ou Sr. Tiago, para mim e muitos outros.
O Sr. Tiago, ou António Tiago lá na terra, vagueou na casa dos meus bisavós, avós do meu pai, pais do meu avô, pai do meu pai. Quanto mais se sobe, mais difícil fica de conseguir explicar quem é quem.
Se ele aprendeu a cozinhar ou ganhou o gosto com a avó Eduarda, não sei. Sei que veio para Lisboa, trabalhou na Casa das Bandeiras. Depois, arranjou aquele cantinho, talvez uma forma de ganhar mais dinheiro, e assim ficou.
E assim ficou o Cantinho do Bem Estar. Gosto de pensar que se tornou um
Consolado de Monforte em Lisboa.

Consolado, sim. Porque no êxodo cada vez mais recorrente de jovens do Interior para a capital, as origens são, invariavelmente, mais variadas. E se hoje em dia, os pólos universitários se desenvolveram e provavelmente, existirão menos minhotos em Lisboa do que existiam há 15 anos (Viva a Universidade do Minho!), estes teriam sempre um prato seguro nos inúmeros restaurantes de origem minhota. Os alto-alentejanos, caso não fugissem para o baixo, optavam, entre outras, em vir para a capital. Muitos dos meus amigos de verão da infância assim o fizeram, o que permitiu aprofundar relações de companheirismo e amizade que perduram e perdurarão. E um dos sítios onde nos encontrávamos, entre exames, noitadas e dia-a-dia, era no Sr. Tiago. O ritual era sempre o mesmo.
Um de nós, mas nunca eu (não tinha esse à-vontade) ligava e marcava.
Quantos somos? Oito! Para as 20:30.
Chegávamos, de metro. Baixa-Chiado, Largo Luís Camões, subir, segunda à esquerda, Rua do Norte.
Os primeiros já teriam um cigarro numa mão e uma imperial noutra, no ato de acompanhar as chegadas uns dos outros. Pediam-se mais umas ou outras. Éramos uns privilegiados porque a nossa mesa estava segura, enquanto outros, maioritariamente estrangeiros (Bairro Alto em 2012-2015, lembrem-se.) eram categoricamente corridos, em bom português para camones: falado alto e de boca bem aberta.
Estamos cheios, obrigado! - (Estou a ser parcialmente incorrecto, o Sr. Tiago ou o empregado também respondiam em inglês.) -
Quando o quórum estava reunido, entrávamos. O puzzle de mesas era montado, uns mais apertados que outros, mas o que importava era a mesa com lambretas ou o jarro de vinho. E assim começava o desfile.
Entre soberba vitela estufada com batata frita caseira, filetes panados com arroz de tomate, secretos de porco grelhados, pataniscas e outras coisas que outros terão comido e se lembrarão, as travessas não paravam. O Sr. Tiago era um avô longe de casa: só ficava contente quando comíamos tudo, mesmo quando já deitávamos comida pelos olhos.
Para acabar, pijaminha de sobremesas todas caseiras: encharcada, sericaia, mousse de chocolate, bolos, e quando não havia, era porque o Sr. Tiago não tinha tido tempo de as fazer. Não era muito de doces na altura, como ainda não sou a 100%. Eu ansiava sempre era pelo café e pela aguardente, que vim com a idade a pedir em balão aquecido e a bebericar lentamente. Naquela idade, bebia de estalo, na tentativa de cortar a gordura que me untava os lábios e que me lembrava da comida das nossas avós.
Como ato ceremonial final, uma caixinha de madeira tosca, claramente comprada no chinês, com um papel onde figuravam 2 dígitos simples: o número de comensais multiplicado por 10€. Comêssemos um simples bago de arroz ou se acabássemos com toda a vitela do mundo, o preço era sempre o mesmo. Num misto de felicidade e desconforto, todos juntávamos as nossas notas terracota e as deixávamos na caixinha, sem não antes beber mais um chupito de aguardente.
Ou dois.
Ou dez. Os que nos permitissem beber para fazer a digestão ou seguir a noite mais animados e reconfortados.
Eu já ouvi também da boca do meu pai que o Sr. Tiago aprendeu a cozinhar com a minha bisavó. De qualquer das formas, nem a mestre nem o aprendiz podem confirmar estas versões. Já ambos partiram, uns há mais, outros há menos tempo. A surpresa da partida do Sr. Tiago, durante ou pós-Covid (a memória não está útil hoje) deixou um grupo órfão desse cantinho, onde não mais conseguimos entrar, nem achar um semelhante. Com isso, fica apenas a minha memória da vitela, que nunca tentarei recriar, mas que procurarei sempre.
Resta-me apenas começar a aprender e a aperfeiçoar as minhas presinhas.

PS: isto é o link do Google sobre o Cantinho. Pensei em colocar uma fotografia do Sr. Tiago, mas não me compete a mim expor isso. Fica então o repositório da memória digital: menu, críticas e fotografias. Que vos console tanto como a mim o fez.
