Comer na barra e em barda

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Comer na barra e em barda
Contributo de algum jovem numa exposição na Tabakalera Vasca, traduzido: Elogio da Alegria

Fiz a primeira viagem para comer. Apenas e só focado em deglutir, sem pensar em mais nada. Claro que o destino mais apetecível e próximo é o País Basco: a concentração de restaurantes estrelados per capita é a maior do mundo, a cidade alberga uma das melhores escolas de cozinha do planeta, a zona vive rodeada de mar e campo, o que fornece bom produto. O que há para falhar? Só a expectativa.

Nos idos de Outubro do ano morto, dou por mim sentado à mesa do Turno da Noite, um supper club conhecido e que recomendo, já ligeiramente embriagado, quando leio um e-mail da nossa querida TAP.

- Amigo, faça atenção, que as suas milhas expiram em 24 horas!
- Ai sim? Então? 20 milhas também não são mossa nenhuma.
- 20 não serão, mas
acredito que 10.000 já magoem.

Até fiquei sóbrio. Vejam vocês que eu tenho programa de milhas, mas viajo pouco, e quando o faço, é de low cost. Estas milhas são arrecadadas via programas de compras ou parcerias em que obrigo pessoas a colocarem o meu número de passageiro em coisas que elas compram ou usam. Foi com algum esforço que consegui colecionar estas milhas, cujo destino estava prestes a selar-se sem que eu as pudesse utilizar com algo do meu agrado.

Como vos disse, as milhas expirariam em 24 horas. Eram aproximadamente 00:00, e o correio tinha caído pelas...2 da manhã do próprio dia. Mais sóbrio fiquei. Começo uma pesquisa intensiva nos destinos possíveis, que dessem para utilizar as milhas quasi-vencidas, e a escolha, consciente ou não, caiu em Bilbao. Bingo, jogo feito nada mais. Marcou-se para Maio, que era quando estava mais barato antes de começar a época alta, apontou-se no calendário e quando nos lembrarmos da viagem, logo organizamos.

Passou o tempo e veio a organização. Chegou-se à conclusão que o destino ideal é San Sebastian, sendo Bilbao apenas uma passagem. Marcou-se um hostel na zona velha, só para dormir. Nisto, mais amigos, que estavam naquela noite das milhas, vão anunciando que também estão numa de ir, mas de carro. Como amigo não empata amigo, pensei porque não? E de repente, há toda uma excursão de pessoas que adoram comer a peregrinar em direcção a uma cidade santa. A mim, juntou-se a Sara, que talvez conheçam por Tascodependente; o Fábio, Carecomida para os seus chavalos; e o Pedro, que reescreve a Bíblia da Comida em PedroFoodBible neste momento e que por acaso, estaria o mês todo na cidade a acabar o seu masters em Jornalismo Gastronómico (se eu não ficar farto de estudar, será a minha próxima aventura). Entre dicas da cidade, desejos antigos e redes sociais à mistura, começam-se a esboçar as listas: uns querem isto, outros aquilo, mas encontrámos consenso. Tudo pronto para arrancar, sexta a segunda.

San Sebastian, capital da provincia de Donostia, é banhada pelo golfo da Biscaia a norte. Garantia contínua de cheiro a mar, faz com que existam verdadeiras especialidades perdidas na calle 31 de Agosto e seus arredores. Sexta, as hostilidades foram abertas no Gandarías.

Estávamos cansados da viagem, mas isto foi o boost que precisávamos. Entre o ruído, a chuva miudinha lá fora e a ausência de lugar sentado, o vinho verde da zona, o txakolí, foi o bálsamo ideal para a alma e as pernas. Olhando pelas vitrines, começamos a ver troços de pão tapados com carne, gambas, anchovas. O ânimo sobe de tal forma que pedimos tudo. Tudo o que fosse possível, em modo prova conjunta e partilha. Acabamos a noite num bar encafuado na zona velha de San Sebastian, entre estudantes, reggaeton e umas cañas. Amanhã seria um outro dia.

Abrimos as hostilidades cedo: recebemos a dica que o Bar António serve a melhor tortilha da cidade, mas temos de ir cedo. Cedo não é às 12:00. É às 8:00. Parece esquisito irmos às primeiras horas da manhã para um bar, mas estamos abertos a tudo. Eu já sabia à partida que seriam dias da mais pura indulgência, mas

ups

sim, havia fila. E gente já lá dentro.

O Bar António é uma instituição donostiarra, já com 30 anos de existência. Especialistas em pintxos variados, mas é a tortilla que motiva as filas às 8 da manhã. Comandada pelos filhos do próprio António, a boa disposição e a energia imprimem um ritmo próprio a quem fica no Bar António. Vão distribuindo grandes troços de pão branco, que acompanham com uma generosa porção da mistura de 32 ovos inteiros, uma generosa quantidade de batatas, cebola caramelizada e pimento verde, num ponto de confecção que privilegia a fritura por fora e a humidade no interior. Às 8 da manhã, enquanto são servidos, perguntarão se querem também café, sumo de laranja natural, cerveja ou txakolí. E não se julga a escolha, cada um, cada qual.

pão e circo? não, bastam ovos

A verdade é que, após a fila, o Bar António mostra muito mais do que pode oferecer. Bocadillos variados, à boa maneira espanhola, mas sempre com tudo do mais fresco e saboroso que se pode comer.

Como é suposto resistir a este festim, regado a vinho verde pelas 10 da manhã? Sem um omeprazol ou nada do género, o truque é ir bebendo e comendo em igual medida, para forrar o estômago.

Em San Sebastián, senti que era o verdadeiro sítio onde podes entrar em qualquer lado e comer bem. E muito. Não senti as doses necessariamente caras, pois a relação qualidade-preço é absurda. O foco no produto é absoluto, tanto na forma como é tratado, como a sua proveniência. Se a vaca não é basca, é galega, ou nascida na Galiza e criada no País Basco. A costa tem o peixe que necessitamos, assim o tempo permita a saída dos pescadores. Nada demora necessariamente muito tempo do prado ao prato ou da água salgada ao sal na grelha e isso nota-se nos produtos tão semelhantes aos da nossa cultura gastronómica com um sabor e saberes tão distintos. Mas uma cidade tão cheia de bons sítios faz com que possamos incorrer em dois erros:

Comer demais.
Andar obsessivamente à procura do melhor.

Preocupa-me mais o segundo do que o primeiro. Ficar empanturrado chateia-me muito menos do que ser obcecado com uma descoberta ou um reclamar de louros que tem tanto de subjectivo como de presunçoso. Num local com centenas de estudantes de cozinha, ligados à culinária e à gastronomia, com um cada vez mais crescente turismo gastronómico, revelado às massas por fenómenos da pop cuisine como The Bear, Knife's Edge e afins, é completamente despropositado acreditar que podemos ainda descobrir algo para revelar ao mundo e afirmar como o melhor. Já fazem essas distinções, com mais ou menos precisão, mais ou menos seriedade, quando elegem os 99 melhores pintxos do Mundo. E esse foco na descoberta, no querer revelar algo que outros não sabem, pode fazer com que nos alheemos da nossa própria busca e experiência. A txuleta que comes num restaurante familiar poderá ser tão boa ou melhor do que a que poderás vir a comer no Asador Etxebarrí ou noutro restaurante de carne nos arredores. As kokotxas (bochechas de bacalhau) idem. A parte boa de estares rodeado de restaurantes Estrela Michelin é que, muito provavelmente, o produto que eles servem também cairá no teu prato de outra forma, com outra preparação e empenho, mas serão sempre servidos com o máximo respeito e sabedoria possíveis. Foi o que testemunhei no Saltxipi, restaurante de família, para famílias. Salas amplas e várias, com toalha branca engomada e um serviço despretensioso, mas atento. Um restaurante que nasceu com sidra, depois as brasas e tudo o que nelas pode ir.

Nunca conseguiria enumerar todos os sítios em que comi, todos os pintxos que provei. Houve alturas que não me lembrei de registar, outras em que o álcool falava mais forte, mas porque acima de tudo, procurei estar entre a barra e o presente, a desfrutar do que queria comer, com quem queria estar e a ver outros a saborear coisas iguais ao que eu estava a comer, mas de forma tão diferente. Fui lá em Maio e escrevo isto entre fim de Setembro e início de Outubro. Entre o mês 5 e hoje, houve outra viagem, da qual ainda não regressei bem em espírito e palavras.

Se quiserem saber mais, fiquem por aí.

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